Quatro dias, uma moto e uma mochila (conclusão)

| RUI ARAÚJO, JORNALISTA TVI
Diário de Bordo
Diário de Bordo

— Há cada vez menos gente em Trujillo. Já não há trabalho. Os jovens partem para as grandes cidades e para o litoral, que são o futuro...

— São? — pergunto como quem não quer a coisa.

Elas não respondem. Limitam-se a sorrir. É um recado silencioso: lamúrias e queixumes não é com elas. Ou com os velhos...

"A velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez", diria Miguel Torga.

Instalo-me num mesón que conheço perto da Plaza Mayor (a da estátua de Francisco Pizarro, conquistador do Perú). Peço migas. Já comi melhores, designadamente em Grândola. Cada região da península ibérica tem as suas. Desde sempre ou quase... já que a gastronomia (ao contrário de nós) resiste ao tempo e à distância.

Foto: Rui Araújo

As ruelas esguias e acanhadas do lugarejo estão desertas, mas o que me incomoda mais é o silêncio. É a mudez ensurdecedora dos manequins clonados tristes que nos macaqueiam nas montras e nos escaparates.

Foto: Rui Araújo

O sol peneirado invade o quarto. Espreguiço-me, espreguiço-me, espreguiço-me. Como quando era puto. Depois do duche e do pequeno-almoço na cafetaria, subo ao castelo, compro um livro (“Tecleo en vano” de Pilar Galán, Editorial de la luna libros, Mérida) e visito uma capela esplêndida já que os palácios aristocráticos continuam a ter dono...

A meio da manhã, ponho-me a caminho de luto na alma . Isto é mais do que uma mera viagem: é uma peregrinação, amarga e solitária feita de memórias desarrumadas, de saudade e de mais saudade. Penso muito no meu pai, que partiu há dias. Não me habituo. Jorge Araújo "partiu" porque os homens só morrem quando deixamos de pensar neles.

"A minha alegria em velho consistiria em ter aqui meu pai para falar com ele. Não é só saudade que sinto: é uma impressão física. Agora é que acharia encanto até às lágrimas em termos a mesma idade, conversarmos ao pé do lume e morrermos ao mesmo tempo..." Palavras do imenso Raúl Brandão em 1908 e que permanecem actuais. Para mim, claro...

Gastei 21,50 € em gasolina para percorrer os 393 quilómetros que separam Barcarena de Trujillo. Consumo médio: 4,34 € aos 100.

TALAVERA DE LA REINA. Estaciono à frente do restaurante El Monasterio (na Avenida Real Fábrica de Sedas, 3 - Ronda Sur). Subo seis degraus, ocupo a única mesa vaga da esplanada e peço leitão assado (cochinillo). O Tejo, alheio aos ruídos do mundo, corre tranquilo, aqui, mesmo à minha frente.

A CB 1100 EX é mais autêntica do que a RS (uma neo-clássica desportiva, estilo café racer, ligeiramente mais cara). É a herdeira mais ou menos natural (se esquecermos o aspecto high tech) das CB de outrora (mais precisamente das dos anos 70, 80 e 90).

É, por outro lado, uma máquina confortável. E entende-se. A geometria antiga (27º de ângulo de forca, uma Showa Dual Bending Valve com 41 mm de diâmetro) posiciona o condutor na parte central.

O motor é sóbrio e eficaz a partir das 2.000 rpm e das 5.000 para cima é fartar vilanagem. Se a opção for circular a 1.000 rotações por minuto com uma velocidade alta engatada o quatro cilindros aceita...

Para fugir dos camiões e dos carros dos caixeiros-viajantes do turismo e do resto, abdico do caminho mais curto para Madrid. Dou preferência a uma estrada municipal que vai para Norte. É menos frequentada e, lá ao longe, dá para acompanhar a linha da Sierra de San Vicente (Cerro de San Vicente: 1.321 metros).

Foto: Rui Araújo

NAVAMORCUENDE. Após Cervera de los Montes, Marrupe e Los Jarales (um complexo de turismo rural para famílias numerosas com animais e casais felizes) subo a encosta (770 metros) e chego (pela CM-5006) ao município.

O encanto do lugar é relativo. Devidamente decepcionado, chego à arreliadora conclusão de que a igreja é a única salvação de Navamorcuende. Tomo um café morno. E parto como cheguei: com sossego e sem esperança. Madrid fica a 126 quilómetros (M-501). Serão mais duas horas a arder de solidão motorizada amorfa entre montes e vales...

Foto: Rui Araújo

MADRID. É uma cidade incrível. É sobretudo uma capital europeia. E eu continuo a deslumbrar-me com as suas avenidas, praças, jardins (estou a pensar no parque del Buen Retiro) e esplanadas (adoro a do Cinco Jotas na Jorge Juan – C/ Puigcerdà, s/n). E com a movida. Os espanhóis podem ser danados, mas são acolhedores, alegres e cojonudos.

Despeço-me de Madrid. E do mesmo modo das minhas intenções gastronómicas: jantar no galego O’Grelo (C/ Menorca, 39), dormida no Petit Palace Savoy Alfonso XII (C/ Alfonso XII, 18, Retiro - Puerta de Alcalá), livros e conversa sobre literatura portuguesa na Pérgamo (esquina da C/ de Lagasca com a del General Oráa) e copos e tapas no... pschtttt, só o meu amigo, exímio motociclista, jornalista e escritor, Antonio Rubio Campaña (autor designadamente de Luis de Oteyza - que foi Ryszard Kapuściński espanhol - y el oficio de investigar , Editorial Libros.com) é que conhece as moradas dos bares. Eu, presentemente, já não me lembro. Ossos do ofício de viver, como apregoa o outro...

Apesar da balbúrdia ou da peleja dos engarrafamentos de Madrid ponho-me em Guadalajara (recordo que a autoestrada com portagem é a pior solução!) em menos de uma hora.

GUADALAJARA. Apesar da preguiça e dos mosquitos, sigo caminho. Preciso de procurar o Norte. Tudela? Tudela soa-me a caça e pesca e a Bardenas Reales (um parque natural selvagem e semi-desértico).

Foto: Rui Araújo

Decido ir em direcção a Tudela. Percorro a E-90/A-15/CL-101 (256 quilómetros de desolação monótona) ou a E-5 (337)? Hoje é a vez da primeira, que margina a aridez. Coincide com o meu estado de espírito. A E-90 será pois o meu miradouro para a outra Espanha. E a admirável terra sacrossanta de que(m) eu gosto é estimulante até nos seus mais ínfimos recantos. O desabafo é sincero, mas não me levem a sério. E não me peçam lucidez. O calor embrutece e embriaga qualquer pessoa... e eu não pareço, mas sou humano.

Foto: Rui Araújo

Paro num saloon de motards espanhóis no meio de nenhures. Feitas as saudações da praxe, entro e bebo uma água suja do imperialismo norte-americano, vulgo cola. Pago na caixa à saída - a troco da entrega de um papelinho manuscrito.

"Na minha terra sou quem sou; na terra alheia sou quem vou", reza o ditado popular...

Foto: Rui Araújo

TUDELA. NA-8703. Os candeeiros da ponte sobre o barrento rio Ebro são iguais aos de Lisboa. E se não são, parecem. O centro da cidade é à esquerda. Como há coincidências (apesar de Fernando Pessoa pretender erradamente o contrário), desrespeito a sinalização. Todas as inépcias vão dar ao mesmo..

Foto: Rui Araújo

CADREITA. Cinco da tarde. Está mais do que visto: é aqui que fico. A intuição raramente nos engana. Procuro a pensão. Desgraçadamente, La Casa de la Abuela (Calle Aralar, 2, Cadreita, Navarra) está fechada a sete chaves. Milagre crucial: descubro um contacto atrás do toldo esverdeado que tapa a porta. Ligo.

— Podes ocupar o quarto 3, cariño... — diz-me dona Esperanza, solicíta.

— Pois... mas como é que eu entro? ¬— indago.

— É fácil...

— E a mota?

— Pode ficar na rua. Aqui ninguém mexe no que é dos outros...

— Mas eu não estou habituado a esse regime...

— Falamos às sete. Não te preocupes...

Ya veremos...

Foto: Rui Araújo

Louvo Deus. Entro. Esperanza é uma optimista genuína que conseguiu preservar o que as gentes do interior têm de bom. Coloco a mochila, o capacete e as luvas no meu quarto. Está uma tarde bonita. Em desespero de causa, entro no primeiro bar que encontro.

Foto: Rui Araújo

O Triángulos (C/ Bardenas, 37) dá para aconchegar a alma e matar a sede. E o espaço é hospitaleiro.

Hola! — dispara o dono.

Muy buenas...

Sensação estranha: sou um perfeito forasteiro aqui, mas sinto-me como em casa. Há encontros felizes. Falamos de Pamplona (a capital das fiestas taurinas de San Fermín, narradas, designadamente, por Hemingway em Fiesta) e de Arguedas, a povoação das imediações, conhecida sobretudo pelas suas cuevas, as cavernas escavadas na serra, que chegaram a estar habitadas nos séculos XIX e XX.

O convívio é cordial, mas ficar aqui parado ou quiçá pasmado não me interessa. Devoro duas excelentes omoletes com presunto e vou deitar-me. Mas só depois de arrumar a moto no pátio da cunhada de dona Esperanza, claro.

Foto: Rui Araújo

CADREITA. Como os ponteiros do relógio não param nunca às 10 parto para Arguedas. Tenho o depósito cheio, o motor não precisa de óleo e a corrente está lubrificada q.b.

Na rotunda da bomba de gasolina ao fundo da rua, dou com Milagro (milagre, em português). Confesso que depois de Esperanza e de Milagro sinto um misto de curiosidade temperada de esperança apesar de crer que o pretenso destino é coisa que não existe.

Foto: Rui Araújo

ARGUEDAS. Comarca de Ribera Navarra. 2.400 almas. Percorro a vila em segunda. Os vecinos idosos sentados num banco ao pé do cemitério fitam-me com olhos de espanto. Sorriem. Saúdo os velhotes com um gesto da mão.

De um lado, a planície do rio Ebro, os soutos e os arrozais. Do outro, a Sierra del Yugo e a Bardena Blanca. Independentemente das tentações, há terras luminosas onde não me importava de viver. Se Arguedas tivesse mar esta seria uma delas. Há serenidade aqui.

Foto: Rui Araújo

A igreja paroquial de San Esteban (dos séculos XVI e XVII) está encerrada. Ignoro a liturgia. Desato com imprecações sonoras. Porque necessitamos do sagrado?

Foto: Rui Araújo

CADREITA. Um duche. Um copo no bar. E dois dedos de conversa com dona Esperanza sobre o jornalismo de guerra e a solidariedade (ou a ausência de solidariedade) e a desistência moral. O resto é conversa de desbocado que não vos interessa...

Foto: Vincent Araújo

IRUN. Esta manhã, parto para França. Opto pela estrada nacional, que passa por Pamplona. Padeço tormentos com o frio e a chuva miudinha nos Pirinéus.

Os redutos separatistas continuam a ser uma realidade mesmo em lugares recatados do País Basco. Mas não há tempo para questionar identidades.

Os Dunlop RoadSmart III não são baratos, mas respondem eficazmente em piso molhado. Os próximos - até prova em contrário - serão idênticos.

Foto: Rui Araújo

HENDAIA. Os engarrafamentos propiciados por ridículas limitações de velocidade sucedem-se e repetem-se para mal da minha paciência.

CIBOURE. Paro na primeira padaria que encontro. Papo um croissant "au beurre" (de manteiga, se faz favor!).

Foto: Rui Araújo

BAIONA. É uma cidade bonita, preservada. Mas a prioridade é visitar o cemitério judeu. Os judeus de Baiona eram essencialmente oriundos de Portugal. Eram designados nos editais da monarquia de França exclusivamente por "Nação Portuguesa". Tinham o seu próprio bairro. Hoje, ninguém dá pela sua presença...

Compro chocolate belga e um ensaio do filósofo francês Michel Onfrain (Zéro de Conduite, Editions de l'Observatoire, França) sobre o bando de jornalistas sem olfacto a soldo de Maastricht e o político Emmanuel Macron inventado pelos media e o mercado. A decomposição...

PAMPLONA. Decido regressar a Lisboa pelo mesmo caminho. E hoje. São 1.016 quilómetros. Com este calor a indolência passa a ser defeito.

A Honda CB 1100 EX aquece (um "cheirinho" de óleo bastou para uma viagem de quase 3.000 quilómetros bem contados), mas não só não tem falhas como responde lindamente às solicitações nas ultrapassagens.

Foto: Rui Araújo

LISBOA. Sol sem calor. A ponte sobre o Tejo é a minha fronteira. Circulo na faixa do meio porque no meio é que está a velocidade. Penso que por muito que me esforce não vou escapar à saudade antecipada da minha próxima peregrinação: Santiago de Compostela para jantar com o meu amigo Xosé Manuel Pereiro na Casa de Xantar (onde se fala, aliás, português!) O Dezaseis. Como diz o especialista em gastronomia, artesanato e afins José Manuel Santos, "não é melhor nem pior. É diferente. Rima com excelente..."

Foto: Rui Araújo

HONDA CB 1100 EX (informação não oficial)

Motor - Transmissão

4 cilindros em linha, quatro tempos em linha arrefecido por ar/óleo, 1147 cm3.

Alimentação electrónica.

Distribuição: 2 ACT, quatro válvulas por cilindro.

Transmissão final por corrente.

Velocidades: 6

Potência máxima

66kW (90CV)/7.500rpm

Ciclística

Quadro: Duplo berço em aço

Peso em ordem de marcha: 255 kgs

Depósito de combustível: 16,8 litros

Luzes: LED

Pneu dianteiro: 110/80/18

Pneu traseiro: 140/70/18

Preço

13.150 €

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