Dakar 2018: 40 anos de aventura todo-o-terreno

André Villas-Boas estreia-se no mítico Dakar
André Villas-Boas estreia-se no mítico Dakar. Foto Instagram @avbdakar

Os primeiros controlos técnicos e administrativos do Dakar começaram na quarta-feira, no regresso do maior rali do mundo ao Peru. A organização mudou-se para os hangares da Base Aérea de Las Palmas em Lima para sediar os concorrentes sul-americanos primeiro. Ao todo esperam-se 523 inscritos e 337 veículos preparados para atravessar um percurso de 8276 km e 4234 km (cronometrados) para as motos e quads. Os carros atravessarão 4329 km de especiais e 8793 km no total. Os camiões terão pela frente 8710 km de percurso.

Uma edição histórica

A organização prometeu uma edição digna do marco histórico: 40 anos de prova todo-o-terreno. O diretor desportivo, Marc Coma apresentou um "traçado mágico" com partida em Lima (Peru), com passagens por paisagens variadas marcadas por dunas. Um "cheirinho" do que se vivia na prova africana, portanto. Os primeiros dias são marcados por dificuldades, devido ao solo, e continuam com a entrada na Bolívia. 

Depois da areia, um novo obstáculo: a altitude. Seguem-se cinco dias de prova e 3000 metros acima do nível do mar. A jornada de descanso, em 12 de janeiro, será cumprida em La Paz, a capital mais alta do mundo, com 3600 metros de altitude. Depois segue-se a maratona até Córdoba (Argentina) onde aguardará a tão esperada meta.

Percurso do Dakar2018

  • 6 jan: 1.ª etapa, Lima Pisco, 272 km (especial cronometrada de 31 km)
  • 7 jan: 2.ª etapa, Pisco - Pisco, 278 km (especial cronometrada de 267 km)
  • 8 jan: 3.ª etapa, Pisco -- San Juan de Marcona, 501 km (especial cronometrada de 295 km)
  • 9 jan: 4.ª etapa, San Juan de Marcona - San Juan de Marcona, 444 km (especial cronometrada de 330 km)
  • 10 jan: 5.ª etapa, San Juan de Marcona -- Arequipa, 932 km (especial cronometrada de 267 km)
  • 11 jan: 6.ª etapa, Arequipa - La Paz, 758 km (especial cronometrada de 313 km)
  • 12 jan: Dia de descanso
  • 13 jan: 7.ª etapa, La Paz -- Uyuni, 726 km (especial cronometrada de 425 km)
  • 14 jan: 8.ª etapa, Uyuni -- Tupiza, 584 km (especial cronometrada de 498 km)
  • 15 jan: 9.ª etapa, Tupiza -- Salta, 754 km (especial cronometrada de 242 km)
  • 16 jan: 10.ª etapa, Salta - Belén, 795 km (especial cronometrada de 372 km)
  • 17 jan: 11.ª etapa, Belén -- Fiambalá/Chilecito, 746 km (especial cronometrada de 280 km)
  • 18 jan, 12.ª etapa, Fiambalá/Chilecito -- San Juan, 791 km (especial cronometrada de 522 km)
  • 19 jan, 13.ª etapa, San Juan -- Córdoba, 927 km (especial cronometrada de 368 km)
  • 20 jan, 14.ª etapa, Córdoba - Córdoba, 284 km (especial cronometrada de 119 km)

"Armada" portuguesa mais reduzida

A sorte não bafejou os pilotos portugueses, inscritos na 40. edição do Dakar. Na categoria motos, onde os lusos somam mais conquistas, conta-se para já a ausência de Mário Patrão (KTM), que foi operado de urgência a uma apendicite, e Paulo Gonçalves (Honda) é baixa confirmada devido as lesões resultantes de uma queda sofrida durante um treino. Nas motos, o contingente fica reduziso a dois pilotos: Joaquim Rodrigues (Hero) e Fausto Mota (KTM).

Nos carros, Carlos Sousa (Renault) assume o volante do Duster com mira apontada ao top-10. Conforme revelou em entrevista ao Autoportal, o "Senhor Dakar" português parte para a edição histórica com espírito de principiante. E por falar em principiante, não esquecer a participação do "mister" André Villas-Boas (Toyota), que vai troca o futebol pelo todo-o-terreno. Contará com a preciosa ajuda do piloto Rúben Faria, que assume o papel de navegador. Filipe Palmeiro (Mini), será o outro português na categoria auto.

Nos buggys/SSV, nota para a estreia de Pedro Mello Breyner (Yamaha), acompanhado pelo também português Pedro Velosa.

Concorrência de peso

Os pilotos portugueses terão sérios adversários na edição 40 do Dakar. Entre muitos, os "suspeitos do costume": Stéphane Peterhansel (Peugeot) campeão em título que procura a 14.ª conquista, entre motos e automóveis; Nasser Al-Attiyah (Toyota), Nani Roma (Mini) e Carlos Sainz (Peugeot); Sebástien Loeb (Peugeot) e Cyril Després.

Nas motos, Sam Sunderland (KTM), vencedor em 2017, é candidato a renovar o título. Terá de contar com a concorrência de Joan Barreda (Honda), Adrien Van Beveren (Yamaha) e Pablo Quintanilla (Husqvarna).

O Dakar 2018 em números:

  • 40.ª edição /10ª. no continente sul-americano
  • Percurso de 9000 km + 4500 km especiais
  • 3 países (Peru, Bolívia e Argentina)
  • 337 veículos em prova: 190 motos e quads 105 carros e SSV's e 42 camiões
  • 535 pilotos inscritos em prova: 11 mulheres, 70 “lendas” (com mais de 10 edições) e 78 "rookies"
  • 54 nacionalidades representadas
  • Recordista vitórias:  Stéphane Peterhansel (6 vitórias em moto e 7 vitórias em auto)
  • Recorde do mundo de vitórias por etapas:  Stéphane Peterhansel  (35 etapas em auto e 33 em moto), Cyril Depres (33 em moto)

A origem de uma odisseia

A aventura começou há 40 anos. Em 1977, Thierry Sabine perdeu sua moto no deserto da Líbia durante o rali Abidjan-Nice. Salvo das areias já em condições extremas, o piloto regressa a França encantado com as paisagens que encontrou em África e decidido em fazer um rali especial. A ideia passa por uma viagem com início na Europa, cuja rota chegaria a Argel, depois passaria por Agadez (Níger) e terminaria em Dakar (Senegal). O fundador associaria um lema como fonte de inspiração para os participantes: "Um desafio para os que partem, um sonho para os que ficam".

Nasce assim o Paris-Dakar, um desafio de titãs para os verdadeiros aventureiros e amantes do todo o terreno. O sonho de Sabine materializou-se a 26 de dezembro de 1978: 182 veículos marcam lugar no Trocadéro (Paris) para uma viagem de 10000 km rumo ao desconhecido, com destino em Dakar.Cyril Neveu foi o primeiro a escrever o nome nas páginas de história ao vencer o rali com a Yamaha 500 XT.

O rali ganha adeptos e apanha a atenção dos espectadores graças às imagens incríveis e os relatos dos comentadores. Em 1983, o Dakar assume proporções assustadoras com um episódio marcante que mudaria para sempre a perceção das pessoas. Na primeira passagem no deserto do Ténéré (Saara) a caravana foi surpreendida por uma tempestade de areia e quarenta pilotos acabaram perdidos. Alguns participantes foram resgatados ao fim de quatro dias.

Em 1986, a reviravolta. O helicóptero onde seguia Thierry Sabine, o cantor francês Daniel Balavoine, a jornalista Nathaly Odent, o piloto François Xavier-Bagnoud e o técnico de rádio Jean-Paul Le Fur despenha-se sem deixar sobreviventes. O rali passou a ficar sob alçada do pai Gilbert Sabine e Patrick Verdoy. A corrida continuo, tal seria o desejo do pioneiro. Mas nada foi como antes.

O fim de uma era e o início de outra

As ameaças terroristas pesaram diretamente no rali. No dia anterior ao início, Etienne Lavigne foi forçado a anunciar o cancelamento da edição de 2008. O anúncio inesperado apanhou os concorrentes, reunidos em Lisboa para as verificações, de surpresa. Três semanas depois (1 de fevereiro), um atentado no coração de Nouakchott (Mautitânia), lembrou a relevância da aplicação do princípio da precaução.

Como forma de fugir aos problemas sociopolíticos, o Dakar muda-se para o continente sul-americano. A primeira edição é disputada em 2009 entre a Argentina e o Chile e recebe um total de 397 participantes: 113 em motos, 13 em quad, 91 na categoria auto e 54 em camião. A prova terminou com as vitórias de Marc Coma em motos, Josef Machacek em quad, Giniel De Villiers nos carros e Firdaus Kabirov nos camiões.

Desde então o rali realiza-se no continente sul-americano, com passagens por Bolívia, Paraguai e Perú. E apesar de já terem passado 10 edições, há quem ainda olhe com desagrado para a edição sul-americana. Os "fiéis" ao Dakar 100% africano, pedem o regresso da prova mítica ao continente de origem, mas a organização garante que tal não será possível enquanto a segurança não estiver assegurada.

 

 

 

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