Portugueses desvalorizam manutenção automóvel

Fábrica da VW em Wolfsburgo
Fábrica da VW em Wolfsburgo
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O automóvel é um investimento muito importante e merece ser protegido não apenas contra roubos, mas também contra o desgaste do uso quotidiano.

A manutenção da viatura é essencial e ausência desta pode comprometer a segurança dos passageiros. Segundo um recente estudo feito pela Prevenção Rodoviária Portuguesa, a Escola Nacional de Saúde Pública e a Norauto Solidária, conclui-se que os portugueses deixam passar ao lado esta questão essencial.

“A manutenção de automóveis ligeiros e a sua influência na segurança rodoviária em Portugal” é o nome da investigação realizada entre abril de 2016 e abril de 2017, que incidiu sobretudo na análise de vários componentes dos veículos (pneus, amortecedores, travões e luzes), na comparação da perceção dos condutores sobre o estado dos respetivos veículos com a avaliação dos profissionais, etc…

Dos 3228 automóveis avaliados pelos técnicos, 23% apresentavam os pneus num estado mau ou sofrível. Em situação semelhante estavam os travões de 16% dos automóveis, os amortecedores de 9% e as luzes de 5%.

Os dados preocupam, pois, os problemas presentes nestes equipamentos essenciais colocam em causa a segurança rodoviária. 

Do estudo concluiu-se que os veículos que se apresentam em melhor estado são os mais recentes, ou seja, os que têm menos quilometragem e aqueles cujos condutores garantem cumprir com mais frequência o plano de manutenção recomendado pela marca. No entanto, à medida que a idade do automóvel avança, os condutores cumprem com menos frequência o plano de manutenção: desde 95% nos veículos com 4 anos ou menos até apenas 55% nos veículos com 15 ou mais anos.

Quanto aos fatores externos ao veículo, os condutores atribuíram a condução sob o efeito de álcool, a velocidade e a fadiga (comportamentos do condutor) como causas que mais influência têm no aumento do risco de acidente rodoviário. Entre os fatores relacionados com o automóvel destacam-se o mau estado de travões e pneus, enquanto o mau estado do piso surge como o fator com maior influência nos indicados.

“Os resultados deste estudo mostram que os condutores ainda não consideram a influência que a distração tem no risco de acidente, sobretudo a provocada pela utilização do telemóvel, ao mesmo nível de outros comportamentos perigosos, como a condução sob a influência do álcool, o excesso de velocidade ou a fadiga”, explicou José Miguel Trigoso, presidente da PRP. “Outro aspeto preocupante é a relativização do risco da condução sob o efeito de álcool por uma parte da população. Na verdade, enquanto nos condutores com alta perceção de risco, o álcool surge como o fator mais perigoso, entre os 13 fatores em avaliação, no grupo de condutores com menor perceção de risco e maior frequência de acidentes, o álcool surge como o de menor importância. Estas duas temáticas devem ser prioritárias no desenvolvimento de políticas de segurança rodoviária”, concluiu.

O estudo permitiu ainda identificar dois grupos de condutores com diferentes perfis de risco – um com alta perceção de risco, que inclui a maioria dos condutores (87%), que atribui mais risco aos comportamentos dos condutores. O outro grupo, de condutores mais novos e com menor escolaridade, representa 13% da amostra e tende a desvalorizar os comportamentos de risco do condutor, atribuindo maior risco de acidente a fatores externos, sobretudo às condições atmosféricas adversas e ao estado do piso das vias.

Além disso, 1/4 dos condutores não considera que o uso do telemóvel representa um risco elevado, 1 em cada 5 não reconhece que a fadiga e a velocidade são fatores de elevado risco de acidente e 30 % dos condutores admite não usar cinto de segurança quando viajam no banco traseiro.

“Este estudo revela com clareza a necessidade de uma estratégia que vá ao encontro dos desafios, em termos de saúde pública, na área da perceção dos comportamentos de risco”, considerou Carla Nunes, Professora da ENSP-NOVA. “Se pensarmos que a percentagem de condutores envolvidos em acidentes é muito maior entre os inquiridos com baixa perceção de risco sobretudo nos comportamentos – em detrimento dos fatores relacionados com o estado do automóvel e da via – e que estas pessoas se encontram, maioritariamente, numa faixa etária jovem, podemos concluir que o caminho para melhorar estes números terá que passar necessariamente por novas abordagens de sensibilização, direcionadas para esta população”, assumiu.

Quanto ao estudo realizado, Philippe Blondel considerou-o um sucesso.

“A Norauto Solidária tem por missão apoiar projetos que na área de atuação da Norauto, possam contribuir para a melhoria da Segurança Rodoviária, ajudar à Mobilidade e respeito pelo Ambiente", explicou o diretor do setor norte da Norauto em Portugal."Aquando do nosso 20º Aniversário, tivemos oportunidade de celebrar uma parceria com a Prevenção Rodoviária Portuguesa e com a Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa para o desenvolvimento deste projecto. Estamos muito satisfeitos por ter contribuído ativamente para a concretização deste estudo da maior importância e cujas conclusões nos devem ajudar a adequar as políticas de segurança rodoviária”, frisou.

De destacar que a percentagem de condutores que se envolveram em acidentes é muito maior nos condutores com baixa perceção de risco de acidente do que nos condutores com alta perceção de risco: 2,6 vezes no caso dos acidentes com danos corporais (6,8% vs. 2,6%) e 1,5 vezes nos acidentes apenas com danos materiais (26,7% vs 17,5%).

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