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‘Vice’ da Renault Gilles Normand analisa “impacto brutal” esperado no setor

Gilles Normand (imagem Renault)
Gilles Normand (imagem Renault)
Responsável pelos EV e pela mobilidade no grupo francês revela abordagem da marca em tempos de incerteza

A pandemia de covid-19 que afeta o mundo no presente tem consequências globais que se fazem sentir desde há várias semanas e cujo impacto real é ainda desconhecido. A globalização desse desconhecimento aplica-se também à indústria automóvel, setor que, como os outros tantos, sofreu no último par de meses as restrições sanitárias e os males económicos do confinamento que afetaram desde a produção às vendas.

Depois de um mês de abril que “não foi propriamente bom”, maio já assinala o regresso da produção e das vendas no seguimento de um primeiro quadrimestre inédito. O conhecimento factual dos números condicionados por uma pandemia ainda em curso é algo que só mais tarde poderá ser avaliado, mas Gilles Normand, vice-presidente sénior com os pelouros dos Veículos Elétricos e dos Serviços de Mobilidade membro do Comité de Direção do Grupo Renault, não espera consequências ligeiras: “O impacto vai ser brutal, como sabemos todos.”

“Estamos a olhar para o mercado, que está a reagir, mas ainda é cedo”, advertiu o responsável do fabricante francês numa vídeo-conferência com jornalistas de meios de comunicação social portugueses na qual participou o Autoportal. As incógnitas sobre o mercado são ainda evidentes, mas a posição da Renault é a de responder sem se desviar do caminho determinado.

“Vamos ter dois carros do segmento A a chegar. Vamos desenvolver uma nova plataforma acima do Zoe. Não precisamos de ficar a depender do Zoe. Vamos para baixo antes e depois para cima.”

Gilles Normand manteve as intenções da marca em “estender a gama para oito elétricos”; o que se traduz, desde já, no cumprimento de lançar o novo Twingo “no calendário” previsto de final deste ano. O outro veículo elétrico (EV) do semento A será a versão europeia do Renault City K-ZE, com pouco mais de de 40 cv e 250 km de autonomia para o mercado chinês. Também em 2021 chegará depois, então, o modelo acima do segmento do Zoe.

Ainda sem decisão está o futuro do Twizy, mas além do sucesso animador que este tem em mercados como o da Coreia, a micro e-mobilidade dos EV de dois lugares permanece no horizonte Renault. E Normand dá outra garantia: “Não estamos a mudar os planos.” Dessa mesma forma, o ‘vice’ do grupo gaulês dá ainda como exemplo, a respeito das potencialidades do City K-ZE ‘europeu’, que “há mais procura pelo Zoe em zonas rurais do que em cidades porque as pessoas não precisam de rodar tanto e gostam de carregar em casa”.

Os planos que podem ser alterados são os que assentavam numa mudança de paradigma do que é a atual dominância da propriedade do veículo para o aumento da partilha do automóvel – com privilégio para os EV. Gilles Normand repete a cautela em relação à precocidade de conclusões e parte da China, onde “o ‘carsharing’ é baixo” e “há mais apetite pelos carros próprios do que pelos transportes” para chegar à Europa.

“O que estamos a experienciar na Europa é que as pessoas irão utilizar menos transportes. Vão andar mais, vão utilizar mais as bicicletas... [Mas] quem puder partilhará [o automóvel]. O ‘carsharing’ é menos partilhado do que os transportes e podemos ter outro equipamento no carro, como os desinfetantes.”

Normand considera, no entanto, que “os que podem” irão continuar a comprar carro e que “ainda não vamos saber” se esta pandemia de distanciamento social terá impactos duradouros e que “devemos esperar.”

“A transição da posse para a partilha, que é suposto evoluir nos próximos 10 anos, pode evoluir de forma diferente. Se vai haver mudanças por causa da covid, mais uma vez ainda é cedo para dizer. No entanto, estamos numa posição, penso, de mais mobilidade pessoal do que partilhada. Mas, como já disse também, o maior impacto vai ser no transporte público.”

No que respeita à Renault em particular, a marca francesa está “a posicionar-se para cumprir os objetivos CAFE” de redução de gases poluentes “independentemente dos apoios da Europa”. Com o Zoe, com a tecnologia E-Tech plug-in, Normand salienta que o fabricante francês, neste momento, está “no virar da curva”.

“Não estamos numa situação disruptiva por falta de fornecedores, mas por falta de clientes”, diz o responsável do Grupo Renault e o caminho para a retoma é eletrificado: “Quem gostava de um EV antes eram os apaixonados da tecnologia ou da ecologia. Agora, já são clientes mais racionais: não preciso de um carro para fazer 500 ou 600 km porque faço 25, ou 30 ou 40 km por dia.”

O valor residual dos EV também já começa a deixar de ser um óbice, pois, se aquele “no início foi um pouco castigado porque não havia histórico”, no presente já “começou a ficar a par” e, em alguns mercados, “já é melhor” do que o dos veículos com motor de combustão (ICE). Gilles Normand frisa mesmo que, neste caminho, “ir de um ICE para um EV é uma viagem de sentido único, de ida sem volta”.

“Eu não quero voltar do EV para o ICE, porque faz menos barulho, porque polui menos... E sempre que se convence alguém, fica feito”, mas, para avançar mais nesse sentido, há mais passos a dar. O ‘vice’ da Renault para os EV sabe que é preciso aumentar a autonomia para haver mais interessados, ter mais capacidade de carregamento para reduzir o tempo de espera, reduzir os custos das baterias; e sem esquecer a possibilidade optar por um EV para segundo carro do agregado.

O responsável dos elétricos e da mobilidade da marca francesa resume que “em geral, é preciso reduzir as emissões e os EV são fundamentais e são apoiados pelas entidades e pelas gerações jovens”, mas que ainda se está a olhar numa “perspetiva a longo prazo”.

E se na Ásia se procura um equilíbrio entre uma ainda existente “dependência do petróleo” e a necessidade de uma “qualidade de vida [que se] mede pela saúde e pelas emissões” e se no mercado dos EUA, “muito pequeno” e relacionado com o preço do crude, as diferenças podem existir logo de forma interna nos vários estados, “na Europa, a eletro-mobilidade mantém-se um objetivo”. “Não penso que vá abrandar”, considera Gilles Normand.

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